O Tesouro Direto pode perder dinheiro? Marcação a mercado explicada com números
Tesouro Prefixado e IPCA+ podem render menos que o contratado, ou até ficar negativos, se você vender antes do vencimento e os juros tiverem subido. Veja simulações com preço do título, quando o risco aparece e como evitá-lo.
Resposta curta: se você levar o título até o vencimento, o Tesouro Direto paga a taxa contratada, garantida pelo Tesouro Nacional (antes de IR e custódia). O risco de perder dinheiro aparece quando você vende antes e os juros de mercado subiram desde a compra. Isso vale sobretudo para Tesouro Prefixado e Tesouro IPCA+, cujos preços mudam todo dia pela chamada marcação a mercado. O Tesouro Selic quase não oscila.
As simulações abaixo usam a fórmula padrão de preço de um título prefixado sem cupom (o Tesouro Prefixado, ou LTN), com dias úteis na base 252, convenção usada no mercado de títulos públicos brasileiro.
Por que o preço muda
Um Tesouro Prefixado paga R$ 1.000 no vencimento. O preço de hoje é esse valor trazido a valor presente pela taxa de mercado:
Preço = R$ 1.000 ÷ (1 + taxa)^(dias úteis até o vencimento ÷ 252)
O valor de vencimento é fixo. Se a taxa de mercado sobe, o divisor aumenta e o preço cai. Se a taxa cai, o preço sobe. É a mesma relação inversa entre juros e preço que vale para qualquer título de renda fixa negociado.
Simulação: Prefixado de 3 anos comprado a 13,50%
Suponha a compra de um Tesouro Prefixado com 3 anos (756 dias úteis) até o vencimento, à taxa de 13,50% ao ano:
Preço de compra = 1.000 ÷ 1,135^3 ≈ R$ 683,93
Se você ficar até o fim, recebe R$ 1.000 por título: +46,2% bruto em 3 anos, exatamente os 13,50% ao ano contratados.
Agora veja o que acontece se você vender depois de 1 ano (faltando 504 dias úteis), conforme a taxa de mercado nesse dia:
| Taxa de mercado na venda | Preço do título | Rentabilidade bruta em 1 ano | Comparado com o contratado (13,50%) |
|---|---|---|---|
| 12,00% (juros caíram) | R$ 797,19 | +16,6% | melhor |
| 13,50% (igual à compra) | R$ 776,26 | +13,5% | igual |
| 15,00% (juros subiram) | R$ 756,14 | +10,6% | pior |
| 20,92% | ≈ R$ 683,93 | 0% | sem ganho nominal |
A venda só fica no zero a zero depois de um ano se a taxa do título subir para cerca de 20,9% — um salto de mais de 7 pontos. Ou seja: depois de um ano, o mais comum é ganhar menos que o contratado, não perder o capital.
No curto prazo, a perda nominal é mais fácil
Com o mesmo título, vendendo 1 mês depois da compra (faltando 735 dias úteis):
- se a taxa continuar em 13,50%: preço de cerca de R$ 691,19, +1,1% no mês;
- se a taxa subir para 15,00%: preço de cerca de R$ 665,22, −2,7% no mês.
Por isso, títulos prefixados e IPCA+ longos não servem para dinheiro que você pode precisar a qualquer momento. Quanto mais longo o prazo restante, maior o efeito de uma mesma mudança de taxa sobre o preço.
E o Tesouro IPCA+?
O Tesouro IPCA+ funciona do mesmo jeito, só que a taxa é real (acima da inflação). Se você compra a IPCA + 7% e a taxa de mercado sobe para IPCA + 8%, o preço cai. Os títulos IPCA+ costumam ter prazos longos (10, 20 ou 30 anos), e por isso oscilam mais que um prefixado de 3 anos para a mesma variação de taxa. Para ter uma ideia: num título sem cupom com 19 anos até o vencimento, se a taxa real passa de 7% para 8%, o preço cai cerca de 16%, porque (1,07 ÷ 1,08)^19 ≈ 0,84. A mesma alta, num título com 3 anos, tiraria menos de 3%. Em compensação, levados ao vencimento, garantem a inflação mais a taxa contratada. Veja a página do Tesouro IPCA+.
E o Tesouro Selic?
O Tesouro Selic (LFT) corrige o valor pela própria Selic todos os dias. A marcação a mercado afeta apenas o pequeno prêmio negociado sobre a taxa (“Selic + x%”), em geral de centésimos de ponto. Oscilações negativas acontecem, mas são raras e de pequena magnitude. Por isso ele é o título recomendado para reserva de emergência e para dinheiro de curto prazo — veja Tesouro Selic ou CDB 100% do CDI.
Além do preço: IR, IOF e custódia
Mesmo sem marcação a mercado, três custos reduzem o rendimento na venda:
- IR regressivo sobre o ganho: 22,5% até 180 dias, 20% até 360, 17,5% até 720 e 15% acima disso (Receita Federal). Se a venda der prejuízo, não há IR.
- IOF sobre o rendimento em vendas com menos de 30 dias.
- Taxa de custódia da B3: 0,20% ao ano sobre o valor dos títulos (no Tesouro Selic, isento até R$ 10 mil por CPF), cobrada na venda, no vencimento ou no pagamento de cupons (regras do Tesouro Direto).
Há ainda a diferença entre o preço de compra e o de venda (spread) praticada pelo Tesouro na recompra antecipada, que reduz um pouco o valor recebido.
Como evitar perder dinheiro com marcação a mercado
- Case o prazo do título com o objetivo. Dinheiro para daqui a 3 anos combina com um prefixado ou IPCA+ de cerca de 3 anos — e não com um de 2035.
- Use o Tesouro Selic para o que pode ser sacado a qualquer momento. Reserva de emergência não deve ficar em título que oscila.
- Não venda no susto. Uma queda no extrato não é perda realizada se você puder esperar o vencimento.
- Prefira títulos sem cupom se não precisa de renda. Os com cupom semestral (Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais, Prefixado com Juros Semestrais) antecipam IR e reinvestimento.
- Entenda que a oscilação pode ser a seu favor. Quem compra quando as taxas estão altas e vê os juros caírem pode vender antes com ganho acima do contratado.
Erros comuns
- Comparar o saldo do extrato com o rendimento “prometido”. O saldo é o preço de mercado de hoje, não o valor que você vai receber no vencimento.
- Usar Tesouro IPCA+ 2045 como reserva de emergência. Uma alta de 1 ponto na taxa real pode tirar mais de 10% do preço de um título tão longo.
- Achar que o Tesouro “quebrou” quando o preço cai. O risco é de mercado (taxa), não de calote; o Tesouro Nacional continua pagando o valor contratado no vencimento.
- Esquecer a custódia em prazos longos. Em 10 anos, 0,20% ao ano soma cerca de 2% do valor investido.
Resumo
| Título | Oscila antes do vencimento? | No vencimento | Melhor uso |
|---|---|---|---|
| Tesouro Selic | Muito pouco | Selic do período | Reserva e curto prazo |
| Tesouro Prefixado | Sim, mais quanto maior o prazo | R$ 1.000 por título | Objetivo com data e prazo parecido com o do título |
| Tesouro IPCA+ | Sim, bastante nos prazos longos | Inflação + taxa real | Aposentadoria e objetivos longos |
Para simular cada título, use as calculadoras de Tesouro Prefixado, Tesouro IPCA+ e Tesouro Selic.
Fontes
- Tesouro Direto — regras e regulamento (preços, custódia, recompra)
- Receita Federal — tabelas de 2026 (IR em renda fixa)
- Banco Central do Brasil, SGS, série 432 (meta Selic)
As taxas usadas nas simulações (13,50%, 12%, 15%) são hipotéticas, escolhidas para ilustrar a mecânica. Consulte as taxas do dia no site do Tesouro Direto.
Perguntas frequentes
Dá para perder dinheiro no Tesouro Direto?
Levando o título até o vencimento, você recebe a taxa contratada (antes de IR e custódia). A perda só acontece se você vender antes e os juros de mercado tiverem subido desde a compra. Isso afeta principalmente Tesouro Prefixado e Tesouro IPCA+; no Tesouro Selic, as oscilações são pequenas.
O que é marcação a mercado?
É a atualização diária do preço do título pela taxa de juros negociada no mercado naquele dia. Se a taxa sobe, o preço cai; se a taxa cai, o preço sobe. É por isso que o saldo do Tesouro Prefixado e do IPCA+ oscila no extrato.
O Tesouro Selic também oscila?
Muito pouco. Como ele acompanha a própria Selic, a marcação a mercado afeta só o pequeno ágio ou deságio negociado sobre a taxa. Por isso é o título indicado para reserva de emergência.
Se eu esperar o vencimento, recebo o que foi prometido?
Sim, a taxa de compra é garantida pelo Tesouro Nacional no vencimento. No Prefixado, isso significa R$ 1.000 por título; no IPCA+, a inflação do período mais a taxa real contratada. Do valor bruto ainda saem o IR e a taxa de custódia.
Vender antes do vencimento sempre dá prejuízo?
Não. Se os juros caírem depois da compra, o preço do título sobe e a venda antecipada pode render mais que o contratado. O risco é simétrico: depende de para onde a taxa foi.